#021 Cripto-Bancos nos EUA, Stablecoins na América Latina e RWA de R$ 7 Trilhões no Brasil
O início de 2026 consolida uma transição fundamental no mercado financeiro global: a dissolução das barreiras entre o ecossistema nativo digital e o sistema bancário tradicional. O que antes era visto como um setor periférico de tecnologia agora busca o centro do arcabouço regulatório, enquanto ativos do mundo real (RWA) começam a ser digitalizados em escala industrial.
Nesta edição, analisamos a movimentação de grandes empresas de criptoativos para obter licenças bancárias federais nos EUA, as tendências de utilidade real das stablecoins na América Latina e as projeções que colocam o Brasil como protagonista global na tokenização de ativos, com um mercado potencial de trilhões de reais. O cenário aponta para um sistema financeiro unificado, onde a eficiência tecnológica e a conformidade regulatória definem os novos líderes de mercado.
1. A Ascensão dos Cripto-Bancos Federais
Cinco das principais empresas do setor de ativos digitais americanos — Circle, Paxos, Anchorage, Kraken e Custodia — avançaram significativamente no processo para obter licenças bancárias federais ou acesso direto às contas de reserva do Federal Reserve (Master Accounts).
O Ponto-Chave: A estratégia visa eliminar a dependência de bancos comerciais intermediários para a guarda de reservas e liquidação de operações. Ao obterem o status de instituições depositárias ou licenças do OCC (Office of the Comptroller of the Currency), empresas como a Circle, emissora do USDC, passam a competir em termos de infraestrutura com grandes bancos comerciais, reduzindo o risco de contraparte e aumentando a velocidade de liquidação institucional.
Análise Estratégica: Esse movimento sinaliza que as stablecoins estão deixando de ser apenas produtos de nicho para se tornarem infraestrutura bancária core. Para o sistema financeiro tradicional, o impacto é a desintermediação operacional: se os emissores de stablecoins possuem acesso direto ao balanço do Banco Central (Fed), a eficiência de custos e a velocidade de transmissão monetária dessas empresas tornam-se um desafio competitivo direto às tesourarias bancárias convencionais. O “risco cripto” é substituído pelo “risco bancário federal”, equalizando a confiança institucional entre novos e velhos players.
Fonte: 5 Major Crypto Companies Just Got One Step Closer to Becoming Banks (Yahoo Finance)
2. América Latina: O Laboratório de Utilidade das Stablecoins
O relatório de tendências da Messari para 2026 destaca a América Latina como a região líder na adoção de stablecoins para fins de utilidade real, distanciando-se do perfil meramente especulativo observado em mercados desenvolvidos.
O Ponto-Chave: O estudo aponta cinco tendências críticas, com destaque para a integração de stablecoins em redes de pagamentos instantâneos e o uso crescente para remessas B2B internacionais. Em economias com alta volatilidade monetária, o “dólar digital” já atua como conta poupança primária e ferramenta de proteção de capital, enquanto no Brasil a tendência é a convergência com sistemas de liquidação rápida para otimizar fluxos de caixa empresariais.
Análise Estratégica: A América Latina demonstra que o valor desses ativos reside na capacidade de resolver fricções históricas de infraestrutura financeira. Para as instituições da região, a oportunidade (e o risco) reside no câmbio e nas transferências transfronteiriças. Stablecoins integradas a trilhos de pagamento locais reduzem spreads e tempos de liquidação de dias para segundos. O desafio para os incumbentes é internalizar essa tecnologia para oferecer contas multimoedas fluidas, sob pena de perderem o fluxo de pagamentos internacionais para plataformas não bancárias que já operam nativamente com esses protocolos.
Fonte: Messari aponta 5 tendências para stablecoins na América Latina em 2026 (Cointelegraph)
3. RWA no Brasil: A Rota dos R$ 7 Trilhões
A tokenização de ativos reais (RWA - Real World Assets) no Brasil está projetada para atingir a marca de R$ 7 trilhões até 2030. Essa projeção é sustentada pela maturidade do mercado de capitais brasileiro e pela necessidade de maior eficiência na securitização de ativos.
O Ponto-Chave: Diferente de ciclos anteriores focados em ativos de varejo, a nova onda de RWA foca em setores estruturantes como o agronegócio (recebíveis agrícolas), crédito privado e duplicatas escriturais. A tecnologia de registro distribuído (DLT) permite o fracionamento de grandes ativos e a automação de processos de custódia, registro e auditoria, reduzindo drasticamente os custos operacionais de emissão.
Análise Estratégica: O Brasil é visto como um mercado de referência global devido à sua infraestrutura de pagamentos já avançada e ao arcabouço regulatório que permite a experimentação de novos modelos de emissão. Para gestoras de ativos e bancos, a tokenização de R$ 7 trilhões não é apenas uma mudança de formato, mas de liquidez: ativos antes ilíquidos e restritos a grandes investidores institucionais passam a ter mercado secundário e acessibilidade. A digitalização do PIB brasileiro via RWA representa a modernização definitiva do balanço patrimonial do país, criando novos trilhos para o fluxo de capital global.
Fonte: Mercado de tokenização RWA no Brasil projeta crescimento para R$ 7 trilhões (Cointelegraph)
Conclusão: Eficiência e Escala Industrial
A edição #021 da TrendFi indica que o mercado financeiro entrou em uma fase de escala industrial. A busca por licenças bancárias por parte de nativos digitais e a projeção de trilhões em ativos tokenizados sugerem que a tecnologia não é mais o diferencial, mas sim a base sobre a qual todos os novos serviços serão construídos.
A convergência operativa e regulatória está redesenhando as margens de lucro e as barreiras de entrada. Em um ambiente onde a segurança jurídica está sendo equalizada e a tecnologia de liquidação se torna commoditizada, o diferencial estratégico residirá na capacidade de orquestrar esses novos ativos dentro de uma jornada de cliente segura e eficiente.
A provocação para a sua semana: Num cenário onde empresas nativas digitais obtêm licenças bancárias federais e a tokenização de ativos reais projeta valores na casa dos trilhões, o diferencial competitivo deixa de ser a tecnologia ou a licença em si. Se a barreira regulatória está a ser equalizada, como a sua instituição planeia reter o fluxo de capital num ecossistema onde a liquidação é instantânea e a custódia é programável?
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Até a próxima edição!
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